Por anos, carreguei em silêncio o que meu pai fez comigo

Há coisas da infância que não deveriam acontecer a nenhuma criança.

Na minha, houve uma ferida que demorou muitos anos até que eu conseguisse chamar pelo nome. Sofri abuso dentro da própria casa, cometido por meu pai, durante a infância e a adolescência, até os meus quinze anos.

Não quero contar detalhes. Não porque eles não tenham importância, mas porque hoje sei que uma vida é muito maior do que aquilo que fizeram conosco.

Durante muito tempo, talvez eu nem soubesse exatamente o que fazer com aquela menina que fui. Então fiz o que estava ao meu alcance: fui à luta.

Estudei.

Os livros se tornaram uma espécie de passagem secreta. Por eles descobri que o mundo era maior do que a minha casa, maior do que o medo e maior até do que as lembranças que eu carregava. Continuei estudando, cheguei à faculdade, me graduei. Construí caminhos que, quando menina, eu talvez nem soubesse que existiam.

Mas estudar não resolveu tudo.

A alma tem seus próprios labirintos.

Procurei respostas em muitos lugares. Fiz buscas espirituais, percorri caminhos diferentes, fiz perguntas, duvidei, acreditei, recomecei. Houve momentos em que procurei Deus muito longe e outros em que percebi que talvez Ele estivesse mais perto do que eu imaginava.

Hoje frequento uma pequena comunidade de fé. Nada grandioso. Uma igreja onde pessoas comuns chegam carregando suas alegrias, suas dores, suas contradições e esperanças. Ali continuo aprendendo que fé não significa ter todas as respostas.

Também nunca abandonei o cuidado com a minha mente.

Passei por terapias, psicólogos e psiquiatras. Precisei de ajuda profissional em diferentes momentos da vida e nunca considerei isso uma derrota. Pelo contrário: permanecer em tratamento foi também uma maneira de permanecer do meu próprio lado.

Não houve uma manhã milagrosa em que acordei completamente curada do passado.

A vida não aconteceu assim.

Algumas cicatrizes ficaram. Certos medos atravessaram décadas comigo. Algumas fragilidades envelheceram ao meu lado. Mas também envelheceram comigo a coragem, a capacidade de procurar ajuda, a curiosidade, a fé e uma estranha insistência em continuar.

Agora cheguei à velhice.

Quando olho para trás, vejo aquela menina, a estudante, a mulher que buscou respostas em tantos lugares, a paciente diante de tantos profissionais, a mulher de fé sentada num banco de uma pequena igreja.

Todas elas sou eu.

E hoje vivo ao lado do meu filho, já adulto. A vida não se tornou perfeita. Nunca se torna. Continuamos sendo duas pessoas com nossos medos, nossas limitações, nossas histórias e nossos afetos, tentando atravessar os dias da melhor maneira que podemos.

Às vezes penso naquela menina de quinze anos.

Ela não sabia o que viria depois.

Não sabia que estudaria, que se graduaria, que buscaria Deus por tantos caminhos, que pediria ajuda tantas vezes, que teria um filho, que envelheceria.

Sobretudo, ela não sabia que chegaria até aqui.

Talvez seja isso que eu gostaria de lhe dizer, se pudesse encontrá-la por alguns minutos:

Você ainda não conhece a maior parte da sua história.

O que fizeram com você fará parte dela.

Mas não será a história inteira.

Compartilho com você a minha história em “A Menina que Deus Guardou” https://www.amazon.com.br/dp/B0HCKX2LQX